O
propósito deste texto é uma apreciação do paradoxo relativismo-determinismo,
feito pelo Príncipe do Paradoxo, Gilbert Keith Chesterton (1874-1936),
em seu clássico livro Ortodoxia[1] (1908),[2] o que está exposto no
Capítulo 3 da obra.
Já
fui agraciado com excelentes livros. O último grande livro que ganhei é um
clássico que já li, de alguma biblioteca, e que desejava comprar. É um livro
que passeia por muitos assuntos que efetivamente medito com certa frequência.
Assim, começo por aquele capítulo que é o que mais me prende na atualidade que
é a dicotomia relativismo-determinismo. E, por favor, deem atenção às notas de
rodapé/de fim porque nelas, também, insiro as minhas efetivas posições.
Sob
o título A Ética do País das Fadas, Chesterton inicia o Capítulo
3 com uma afirmação que me aflige e que o afetou profundamente:
“Sim, quando somos
jovens temos essas ideias e esses castelos de areia; mas na maturidade tudo se
desmancha como as nuvens, e terminamos por acreditar na política pragmática, no
uso do maquinário que temos em mãos e na conformidade do mundo como ele é”. Era
assim, ao menos, que os filantropos anciões e veneráveis que agora jazem em
seus honrados túmulos, falavam a mim quando era um garoto.[3]
Já
não sou jovem, sou oficialmente idoso, em 14.8.2026, Wagner Henrique, um amigo
com quem trabalho na Procuradoria Federal junto à Fundação Universidade de
Brasília, ente autárquico criado pela Lei 3.998, de 15.12.1961, para organizar
e manter a Universidade de Brasília, foi quem me deu o livro o livro como
presente de aniversário (60 anos de idade). E tenho uma pequena discordância em
relação ao texto transcrito porque não consigo ver facilmente filantropos
autênticos. Um filantropo seria uma pessoa voltada a defender o social,
defender pessoas, distribuir a riqueza etc. Vejo o ser humano como vocacionado
a se proteger, até mesmo da morte, fazendo as coisas por interesses pessoais,
ainda que seja “comprar” um lugar aos céus por meio da “meritocracia de fazer o
bem”.[4] Devo, também, ressaltar
que o autor rechaça a afirmação transcrita porque não perdeu suas crenças por
um suposto pragmatismo utilitário. Ele acredita no liberalismo, não nos
“liberais”.
Criado
e educado como liberal, Chesterton acreditou no liberalismo. Assim como eu,
acredita que as coisas mais comuns são extraordinárias, melhores que as
excepcionais.[5]
De fato, nada é melhor do que buscar uma vida harmônica na família e no
trabalho do que tentar ser diferente em tudo. Quem vive “diferentão”, enfrenta
muitos obstáculos, pelos quais já passei. Hoje, procuro ser ordinário, normal
ou comum.
É
interessante que o autor se considere experiente, não jovem, aos 34 anos de
idade, expondo como se fosse um idoso as suas experiências da vida. É nesse
contexto que Chesterton afirma que concluiu que a democracia é voltada a
atender as coisas essenciais e comuns aos homens, não as particulares.
A
democracia não se opõe à tradição. A tradição é a democracia que se estende no
tempo. “Aquele que cita algum historiador alemão contra a tradição da Igreja
Católica, por exemplo, apela à aristocracia”. A lenda, por ser de uma maioria é
mais crível que um livro, que normalmente é escrito por um único homem. Os
ricos tendem a afirmar que os eleitores de bairros pobres são ignorantes. Para
Chesterton tradição e democracia são a mesma ideia.[6]
O
autor afirma que se ele tem um viés, esse é em favor da democracia e, portanto,
da tradição. Prefere acreditar nas fábulas das multidões em relação aos fatos
das coquetes. Afirma acreditar em contos de fadas, que não são fantasias. O que
são anormais são o racionalismo e a religião. Seguindo nessa linha de valorizar
os contos de fadas, o autor afirma: “Preocupo-me com uma certa forma de olhar a
vida, que foi em mim gerada pelos contos de fadas e que desde então foi
humildemente ratificada pelos simples fatos”.[7]
O
autor informa que nas relações mentais existem leis, o que inexiste nas
relações dos fatos físicos, onde existe somente estranhas repetições e, em nota
de rodapé, esclarece:
As assim chamadas
“leis da natureza” só o são na medida que são abstratas. Por exemplo, a lei da
queda dos corpos de Galileu só é válida com exatidão no vácuo absoluto, que é
uma condição impossível e uma mera abstração. O determinismo vale para a
equação em um mundo de universalidade e abstração, mas nunca para o nosso mundo
real e concreto.[8]
A
crítica de Chesterton à Lei da Gravitação Universal de Newton (Isaac Newton,
1643-1727) é recorrente, expondo que nos contos de fadas não há determinismo ou
relação de causa e efeito, enquanto os cientistas, de dois enigmas obscuros
extraem uma resposta cristalina.[9]
No
mundo das fadas evitamos a palavra “lei”, enquanto o mundo da ciência tem
especial apreciação por ela. Na linha da descrença nas relações de causa e
efeito, de como um ovo se transforma em um pássaro, Chesterton conclui:
As únicas palavras
que já me saciaram como uma descrição da Natureza são os termos usados nos
contos de fadas, como “feitiço”, “encanto” e “magia”. Elas expressam a
arbitrariedade do fato e o seu mistério. A árvore cresce porque é uma árvore
mágica. A água desce morro abaixo porque é encantada. O sol brilha porque é
encantado.[10]
É
interessante como o autor segue expondo que tanto nos contos de fadas, quando
na vida, a felicidade, o “dar certo”, sempre está diante de uma condição. A
vida, assim como o cristal, é frágil, o que não significa que não seja
duradoura.
O
autor continua dizendo ser mais racional o mundo das fadas que o das ciências
naturais. Foi complicado distinguir a babá dos contos que ela lhe falava.
Também critica os deterministas do Século XIX por serem cheios de dúvidas,
duvidarem até do próprio momento em que se encontravam.[11]
A
repetição é corrente na natureza. Pode ser que Deus fale com o sol e com a lua,
diariamente, “de novo” para que eles brilhem nos céus. Deus é eternamente jovem
tendo uma vitalidade constante. Nós, ao contrário, nos cansamos e, também,
morremos.
O
autor afirma que “No país das fadas havia uma lei real, que poderia ser
violada, como toda lei por definição o pode”.[12] Mas, sequer temos o
direito de, no universo cósmico, podermos desafiar a lei.
Em
meio às conclusões do autor de que o mundo não se autoexplicava, entende que há
algo pessoal no mundo como em uma obra de arte. Afirma que há beleza no mundo e
que “Somos também devedores de obediência ao ser que nos criou, não importando
o que ele é. (...) E durante todo esse tempo não tinha sequer pensado na
teologia cristã”.[13]
O
que se vê nesse Capítulo 3 resumido é que o autor, embora critique as leis das
ciências naturais, conclui em favor do criacionismo e de um determinismo que
fundamenta a teologia cristã. Ao contrário, sou relativista, não conseguindo
concatenar todo universo à uma criação divina e desdobramentos causais, ao
menos conforme é exposta na Bíblia e na teologia cristã.
De
todo modo, a leitura do livro é agradável. Eu a recomendo, tanto é que estou
relendo o livro.
[1] A inteligência
artificial do Google, sem reparos a fazer, assim define ortodoxia:
Ortodoxia significa a conformidade estrita com
um conjunto de princípios, regras ou crenças tradicionais estabelecidos por uma
doutrina. A palavra vem do grego orthos (reto, correto) e doxa
(opinião ou fé), indicando literalmente a "fé correta" ou o
"ensino verdadeiro".
(Disponível em: <https://www.google.com/search?q=O+que+significa+ortodoxia%3F&oq=O+que+significa+ortodoxia%3F&gs_lcrp=EgZjaHJvbWUyBggAEEUYOTIHCAEQABiABDIHCAIQABiABDIHCAMQABiABDIICAQQABgWGB4yCAgFEAAYFhgeMggIBhAAGBYYHjIKCAcQABgKGBYYHjIICAgQABgWGB4yCAgJEAAYFhge0gEIOTc3OGowajmoAgawAgHxBaqZ4JPyxLno&sourceid=chrome&source=chrome.ob&ie=UTF-8>.
Acesso em: 23.8.2026, às 9h30).
[2] CHESTERTON, G. K., Ordoxia.
2. ed. Campinas: CEDET, 2018.
[3] CHESTERTON, G. K., Ordoxia. 2. ed. Campinas: CEDET,
2018. p. 57.
[4] Talvez o maior
exemplo de filantropo da atualidade seja Bill Gates (nascido em 28.10.1955).
Mas, não podemos esquecer que a sua imagem foi chamuscada no caso Jeffrey
Epstein (1953-2019). Outro filantropo famoso é George Soros (nascido em
12.8.1930), um especulador do sistema financeiro, que pode ser um ideologista.
Mas, sobre ambos, somente a história poderá dizer o quanto são pessoas que
efetivamente buscaram o bem coletivo e ajudar os mais pobres.
[5] CHESTERTON, G. K., Ordoxia.
2. ed. Campinas: CEDET, 2018. p. 58.
[6] CHESTERTON, G. K., Ordoxia. 2. ed. Campinas: CEDET,
2018. p. 59-60.
[7] Ibidem. p. 62.
[8] Ibidem. p. 63.
[9] Ibidem. p. 64.
[10] Ibidem. p. 66.
[11] Ibidem. p. 74.
[12] Ibidem. p. 78.
[13] Ibidem. p. 82.
Nenhum comentário:
Postar um comentário