quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Relativismo e determinismo em Chesterton e em mim

O propósito deste texto é uma apreciação do paradoxo relativismo-determinismo, feito pelo Príncipe do Paradoxo, Gilbert Keith Chesterton (1874-1936), em seu clássico livro Ortodoxia[1] (1908),[2] o que está exposto no Capítulo 3 da obra.

Já fui agraciado com excelentes livros. O último grande livro que ganhei é um clássico que já li, de alguma biblioteca, e que desejava comprar. É um livro que passeia por muitos assuntos que efetivamente medito com certa frequência. Assim, começo por aquele capítulo que é o que mais me prende na atualidade que é a dicotomia relativismo-determinismo. E, por favor, deem atenção às notas de rodapé/de fim porque nelas, também, insiro as minhas efetivas posições.

Sob o título A Ética do País das Fadas, Chesterton inicia o Capítulo 3 com uma afirmação que me aflige e que o afetou profundamente:

“Sim, quando somos jovens temos essas ideias e esses castelos de areia; mas na maturidade tudo se desmancha como as nuvens, e terminamos por acreditar na política pragmática, no uso do maquinário que temos em mãos e na conformidade do mundo como ele é”. Era assim, ao menos, que os filantropos anciões e veneráveis que agora jazem em seus honrados túmulos, falavam a mim quando era um garoto.[3]

Já não sou jovem, sou oficialmente idoso, em 14.8.2026, Wagner Henrique, um amigo com quem trabalho na Procuradoria Federal junto à Fundação Universidade de Brasília, ente autárquico criado pela Lei 3.998, de 15.12.1961, para organizar e manter a Universidade de Brasília, foi quem me deu o livro o livro como presente de aniversário (60 anos de idade). E tenho uma pequena discordância em relação ao texto transcrito porque não consigo ver facilmente filantropos autênticos. Um filantropo seria uma pessoa voltada a defender o social, defender pessoas, distribuir a riqueza etc. Vejo o ser humano como vocacionado a se proteger, até mesmo da morte, fazendo as coisas por interesses pessoais, ainda que seja “comprar” um lugar aos céus por meio da “meritocracia de fazer o bem”.[4] Devo, também, ressaltar que o autor rechaça a afirmação transcrita porque não perdeu suas crenças por um suposto pragmatismo utilitário. Ele acredita no liberalismo, não nos “liberais”.

Criado e educado como liberal, Chesterton acreditou no liberalismo. Assim como eu, acredita que as coisas mais comuns são extraordinárias, melhores que as excepcionais.[5] De fato, nada é melhor do que buscar uma vida harmônica na família e no trabalho do que tentar ser diferente em tudo. Quem vive “diferentão”, enfrenta muitos obstáculos, pelos quais já passei. Hoje, procuro ser ordinário, normal ou comum.

É interessante que o autor se considere experiente, não jovem, aos 34 anos de idade, expondo como se fosse um idoso as suas experiências da vida. É nesse contexto que Chesterton afirma que concluiu que a democracia é voltada a atender as coisas essenciais e comuns aos homens, não as particulares.

A democracia não se opõe à tradição. A tradição é a democracia que se estende no tempo. “Aquele que cita algum historiador alemão contra a tradição da Igreja Católica, por exemplo, apela à aristocracia”. A lenda, por ser de uma maioria é mais crível que um livro, que normalmente é escrito por um único homem. Os ricos tendem a afirmar que os eleitores de bairros pobres são ignorantes. Para Chesterton tradição e democracia são a mesma ideia.[6]

O autor afirma que se ele tem um viés, esse é em favor da democracia e, portanto, da tradição. Prefere acreditar nas fábulas das multidões em relação aos fatos das coquetes. Afirma acreditar em contos de fadas, que não são fantasias. O que são anormais são o racionalismo e a religião. Seguindo nessa linha de valorizar os contos de fadas, o autor afirma: “Preocupo-me com uma certa forma de olhar a vida, que foi em mim gerada pelos contos de fadas e que desde então foi humildemente ratificada pelos simples fatos”.[7]

O autor informa que nas relações mentais existem leis, o que inexiste nas relações dos fatos físicos, onde existe somente estranhas repetições e, em nota de rodapé, esclarece:

As assim chamadas “leis da natureza” só o são na medida que são abstratas. Por exemplo, a lei da queda dos corpos de Galileu só é válida com exatidão no vácuo absoluto, que é uma condição impossível e uma mera abstração. O determinismo vale para a equação em um mundo de universalidade e abstração, mas nunca para o nosso mundo real e concreto.[8]

A crítica de Chesterton à Lei da Gravitação Universal de Newton (Isaac Newton, 1643-1727) é recorrente, expondo que nos contos de fadas não há determinismo ou relação de causa e efeito, enquanto os cientistas, de dois enigmas obscuros extraem uma resposta cristalina.[9]

No mundo das fadas evitamos a palavra “lei”, enquanto o mundo da ciência tem especial apreciação por ela. Na linha da descrença nas relações de causa e efeito, de como um ovo se transforma em um pássaro, Chesterton conclui:

As únicas palavras que já me saciaram como uma descrição da Natureza são os termos usados nos contos de fadas, como “feitiço”, “encanto” e “magia”. Elas expressam a arbitrariedade do fato e o seu mistério. A árvore cresce porque é uma árvore mágica. A água desce morro abaixo porque é encantada. O sol brilha porque é encantado.[10]

É interessante como o autor segue expondo que tanto nos contos de fadas, quando na vida, a felicidade, o “dar certo”, sempre está diante de uma condição. A vida, assim como o cristal, é frágil, o que não significa que não seja duradoura.

O autor continua dizendo ser mais racional o mundo das fadas que o das ciências naturais. Foi complicado distinguir a babá dos contos que ela lhe falava. Também critica os deterministas do Século XIX por serem cheios de dúvidas, duvidarem até do próprio momento em que se encontravam.[11]

A repetição é corrente na natureza. Pode ser que Deus fale com o sol e com a lua, diariamente, “de novo” para que eles brilhem nos céus. Deus é eternamente jovem tendo uma vitalidade constante. Nós, ao contrário, nos cansamos e, também, morremos.

O autor afirma que “No país das fadas havia uma lei real, que poderia ser violada, como toda lei por definição o pode”.[12] Mas, sequer temos o direito de, no universo cósmico, podermos desafiar a lei.

Em meio às conclusões do autor de que o mundo não se autoexplicava, entende que há algo pessoal no mundo como em uma obra de arte. Afirma que há beleza no mundo e que “Somos também devedores de obediência ao ser que nos criou, não importando o que ele é. (...) E durante todo esse tempo não tinha sequer pensado na teologia cristã”.[13]

O que se vê nesse Capítulo 3 resumido é que o autor, embora critique as leis das ciências naturais, conclui em favor do criacionismo e de um determinismo que fundamenta a teologia cristã. Ao contrário, sou relativista, não conseguindo concatenar todo universo à uma criação divina e desdobramentos causais, ao menos conforme é exposta na Bíblia e na teologia cristã.

De todo modo, a leitura do livro é agradável. Eu a recomendo, tanto é que estou relendo o livro.



[1] A inteligência artificial do Google, sem reparos a fazer, assim define ortodoxia:

Ortodoxia significa a conformidade estrita com um conjunto de princípios, regras ou crenças tradicionais estabelecidos por uma doutrina. A palavra vem do grego orthos (reto, correto) e doxa (opinião ou fé), indicando literalmente a "fé correta" ou o "ensino verdadeiro".

(Disponível em: <https://www.google.com/search?q=O+que+significa+ortodoxia%3F&oq=O+que+significa+ortodoxia%3F&gs_lcrp=EgZjaHJvbWUyBggAEEUYOTIHCAEQABiABDIHCAIQABiABDIHCAMQABiABDIICAQQABgWGB4yCAgFEAAYFhgeMggIBhAAGBYYHjIKCAcQABgKGBYYHjIICAgQABgWGB4yCAgJEAAYFhge0gEIOTc3OGowajmoAgawAgHxBaqZ4JPyxLno&sourceid=chrome&source=chrome.ob&ie=UTF-8>. Acesso em: 23.8.2026, às 9h30).

[2] CHESTERTON, G. K., Ordoxia. 2. ed. Campinas: CEDET, 2018.

[3] CHESTERTON, G. K., Ordoxia. 2. ed. Campinas: CEDET, 2018. p. 57.

[4] Talvez o maior exemplo de filantropo da atualidade seja Bill Gates (nascido em 28.10.1955). Mas, não podemos esquecer que a sua imagem foi chamuscada no caso Jeffrey Epstein (1953-2019). Outro filantropo famoso é George Soros (nascido em 12.8.1930), um especulador do sistema financeiro, que pode ser um ideologista. Mas, sobre ambos, somente a história poderá dizer o quanto são pessoas que efetivamente buscaram o bem coletivo e ajudar os mais pobres.

[5] CHESTERTON, G. K., Ordoxia. 2. ed. Campinas: CEDET, 2018. p. 58.

[6] CHESTERTON, G. K., Ordoxia. 2. ed. Campinas: CEDET, 2018. p. 59-60.

[7] Ibidem. p. 62.

[8] Ibidem. p. 63.

[9] Ibidem. p. 64.

[10] Ibidem. p. 66.

[11] Ibidem. p. 74.

[12] Ibidem. p. 78.

[13] Ibidem. p. 82.

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