terça-feira, 8 de setembro de 2026

Ortodoxia: Capítulo 1: O Lunático

 

Ortodoxia: Capítulo 1: O Lunático[1]

Estou escrevendo resumos do livro Ortodoxia, de 1908, cujo autor é Gilbert Keith Chesterton (1874-1936). Iniciei pelo Capítulo 3 da obra[2] e depois resumi o prefácio e a introdução.[3] Agora seguirei a ordem do livro com os títulos que o autor deu aos capítulos. Pretendo permitir uma leitura célere do conteúdo do livro para aqueles mais apressados, sem dispensar a leitura do texto integral, até porque o autor é muito bom. Ademais, Thomas Samuel Kuhn (1922-1996) demonstrou que nenhuma teoria permanece como paradigma por muitos anos sem uma base teórica sólida que a sustente. É o que se pode dizer do clássico livro Ortodoxia.

O primeiro capítulo do livro inicia com a grande questão:

– Os homens que efetivamente acreditam que vencerão na vida são lunáticos e estão em manicômios?

O autor afirma que a resposta é verdadeira.[4] Então, questionado sobre o fato de não ter um homem não ter que acreditar em si mesmo, em quem deveria acreditar, Chesterton afirmou que escreveria um livro sobre isso.[5] Daí o Ortodoxia.

No livro, acredita-se que a ciência e a religião partem de fatos. Porém, “Alguns novos teólogos questionam o pecado original, que é a única parte da teologia cristã que pode ser realmente provada”.[6][7] Para Chesterton é correto afirmar:

Os maiores santos e céticos sempre tomaram o mal positivo como ponto de partida de seus argumentos. Se é verdade (como certamente o é) que um homem pode sentir uma felicidade requintada em esfolar um gato, então o filósofo religioso só pode chegar a duas deduções: negar a existência de Deus, como fazem todos os ateus; ou negar a união plena entre Deus e o homem, como fazem todos os cristãos. O novo teólogo aparentemente pensa que negar o gato esfolado é uma solução altamente racionalista.[8]

Chesterton cita R. J. Campbell para sustentar que há uma corrente cristã que nega o pecado humano.[9][10] E, de uma forma ímpar, ironicamente, faz a afirmação transcrita, que uma inferência lógica maluca que considerou presente no seu tempo.

De forma eloquente, o autor faz o paradoxo entre a loucura (do manicômio) e a negação do pecado para afirmar naquilo que é inegável na atualidade: os pensamentos modernos tendem levar o homem à loucura.[11][12]

Sem mencionar Erasmo de Roterdã, Chesterton critica aqueles que elogiam a loucura. Com todo respeito que tenho ao autor, peço licença para discordar porque já escrevi maravilhado pela leitura de Elogio da Loucura.[13] A seguir, o autor defende a imaginação, afirmando que ela não gera loucura, quem a causa é a lógica e o racionalismo.[14]

O autor nega a hipótese de serem os lunáticos autores de ações sem causas. Afirma que as pessoas conscientes são as que mais praticam atos incausados, por exemplo, assobiar enquanto caminha, chutar o próprio calcanhar etc. É o homem feliz que faz coisas sem sentido; o fraco é doente demais para o ócio”.[15] E continua: “...De fato, o dito comum sobre a insanidade é enganador: o louco não é o homem que perdeu sua razão, mas sim aquele que perdeu tudo exceto a razão”.[16]

Chesterton menciona William Cowper (1731-1800), um poeta e musicista deprimido que encontrou refúgio na fé cristã. Aduz que Cowper foi condenado por João Calvino (1509-1564).[17] Segundo o autor, John Gilpin[18] quase o salvou.[19] Mais adiante, nesse contexto de rejeição ao livre-arbítrio, afirma:

...Nem a ciência moderna nem a religião antiga acreditam na completa liberdade do pensamento. A teologia rejeita certos pensamentos como blasfemos. A ciência rejeita certos pensamentos como mórbidos. Por exemplo, algumas sociedades religiosas moderadamente desencorajam os homens a pensar sobre o sexo.[20]

Nessa linha, o autor afirma que a ciência moderna é contra tratar de assuntos mórbidos, como a morte, embora ela seja um fato inevitável. Chesterton, também, afirma ser difícil ao maníaco conseguir se salvar porque isso só é possível pela vontade e pela fé.[21] Aduz que os “doutores” (provavelmente fazendo referência aos Médicos) e os psicólogos são intolerantes com os lunáticos, assim como o foi intolerante Maria, a Sanguinária.[22][23]

O autor prossegue na sua relação entre os cientistas da sua época e os lunáticos, tentando demonstrar que a loucura está mais visível nos primeiros. Então, avança para o materialismo, dizendo que ele tem uma “simplicidade louca”,[24] Ele evolui criticando a visão simplista dos materialistas. Também, qualquer filosofia materialista é mais limitadora do que qualquer religião,[25] equiparando os materialistas aos loucos por não terem dúvidas.[26]

Ao final do capítulo o autor discorre sobre a distinção e aproximação entre o materialista e o lunático, expondo haver maior grau de sensibilidade nesse último, até porque nele há imaginação livre, enquanto o materialista é determinista.



[1] Noutra tradução, “O Maníaco”. CHESTERTON, Gilbert K. Ortodoxia. 2. ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2012. Disponível em: <https://books.google.com.br/books?id=aybgh8gvofUC&printsec=frontcover&hl=pt-BR&source=gbs_atb#v=onepage&q&f=false>. Acesso em: 7.9.2026, às 9h20.

[2] MESQUITA JÚNIOR, Sidio Rosa de. Relativismo e determinismo em Chesterton e em mim. Disponível em: <https://sidiojunior.blogspot.com/2026/08/relativismo-e-determinismo-em.html>. Acesso em: 30.8.2026, às 0h31.

[3] MESQUITA JÚNIOR, Sidio Rosa de. Prefácio e introdução ao livro intitulado Ortodoxia. Disponível em: <https://sidiojunior.blogspot.com/2026/08/prefacio-e-introducao-ao-livro.html>. Acesso em: 30.8.2026, às18h.

[4] CHESTERTON, G. K., Ortodoxia. 2. ed. Campinas: CEDET, 2018. p. 15-16.

[5] Ibidem. p. 16.

[6] Ibidem. p. 17.

[7] Sem fé, a criação e o pecado original estão longe de qualquer prova. Parece-me que o autor invoca a própria fé para tal afirmação.

[8] CHESTERTON, G. K., Ortodoxia... Op. cit. p. 17.

[9] CHESTERTON, Gilbert K. Ortodoxia. 2. ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2012. Disponível em: <https://books.google.com.br/books?id=aybgh8gvofUC&printsec=frontcover&hl=pt-BR&source=gbs_atb#v=onepage&q&f=false>. Acesso em: 7.9.2026, às 9h20.

[10] Reginald John Campbell (1867-1958) foi um popular reverendo anglicano da Inglaterra, um dos expoentes da “Nova Teologia”, de 1907. Consultei a Inteligência Artificial do Google e ela corretamente sintetizou:

O termo "Nova Teologia" associado ao ano de 1907 refere-se a dois fatos históricos muito importantes, um no mundo protestante britânico e outro no mundo católico romano.

O que cada um deles preconiza depende de qual cenário estamos olhando:

Em 1907, o pastor congregacionalista britânico Reginald John Campbell publicou o famoso livro chamado The New Theology (A Nova Teologia). Esse movimento tentava adaptar a fé cristã às descobertas da ciência da época (como a evolução de Darwin) e à filosofia moderna. [1, 2]

Esse pensamento defendia que:

>> Deus está em tudo (Imanência Divina): Deus não é um ser distante sentado em um trono no céu. Ele está expressando a si mesmo dentro do universo e dentro de cada ser humano. [1, 2]

>> A humanidade é uma só com Deus: Jesus Cristo não veio para pagar uma dívida de sangue pelo pecado, mas sim para mostrar o exemplo perfeito de como a nossa alma está ligada ao Criador.

>> O "Pecado" é o egoísmo: O pecado não é uma mancha herdada de Adão, mas sim o ato de o homem colocar a si mesmo acima do bem comum e da união com o resto do mundo.

>> Foco no progresso social: A igreja deveria focar em melhorar a vida das pessoas no presente (justiça social), e não apenas em salvá-las para o pós-morte.

No mesmo ano de 1907, o Papa São Pio X publicou uma famosa carta oficial chamada Encíclica Pascendi Dominici Gregis. Nela, o Vaticano usou termos parecidos para condenar e proibir o que chamou de "Modernismo".

Os críticos católicos tradicionais diziam que essa mentalidade (que mais tarde, nos anos 1940, ganhou força com o nome de Nouvelle Théologie ou "Nova Teologia") trazia grandes erros. De acordo com a visão do Vaticano em 1907, o que se combatia nessas ideias era:

>> Relativismo na Verdade: A ideia de que as verdades religiosas mudam e evoluem com o passar do tempo de acordo com a cultura.

>> Subjetivismo: A crença de que a fé nasce de um sentimento ou de uma necessidade interna do coração humano, e não de fatos reais históricos revelados por Deus.

>> Desprezo pela Tradição: O costume de deixar de lado a filosofia tradicional da Igreja (como os ensinos de Santo Tomás de Aquino) para seguir filósofos modernos.

[11] Ibidem. p. 18.

[12] Posso estar errado. Sei que Harrari errou em parte. Mas, na parte em que ele afirmou que o homem está doente e a sua doença é mental, disso não discordo. Só não vejo isso como um problema da ciência, talvez seja mais da economia e da comunicação, as quais geram desejo incontrolável pelo poder: financeiro, projeção social, político etc.

[13] MESQUITA JÚNIOR, Sidio Rosa de. Machismo puro sangue: a minha percepção da obra elogio da loucura, de Erasmo de Rotterdam, nos anos de 2017 a 2020. E a felicidade? pode ser conquistada? Publicação: 19.9.2021. Disponível em: <https://sidiojunior.blogspot.com/search?q=Elogio+da+loucura>. Acesso em: 4.9.2026, às 20h11.

[14] CHESTERTON, G. K., Ortodoxia... Op. cit. p. 20.

[15] CHESTERTON, G. K., Ortodoxia... Op. cit. p. 22.

[16] Ibidem. p. 23.

[17] Embora Jehan Calvin (João Calvino) tenha antecedido Cowper, o seu determinismo marcante (o homem não tem liberdade de escolha – livre-arbítrio – e sim Deus é quem escolhe os homens que serão salvos e aqueles que não se desviarem dos seus mandamentos jamais perderão a salvação eterna) é contrário à ideia de liberdade de Cowper ter se curado da sua depressão ao escolher o cristianismo. Essa é a minha interpretação da suposta condenação feita por João Calvino.

[18] Johan Gilpen parece ser uma pessoa real de nome Bayer. Mas, foi um personagem da famosa balada de Cowper intitulada The Diverting History of John Gilpin.

[19] CHESTERTON, G. K., Ortodoxia... Op. cit. p. 20.

[20] Ibidem. p. 25.

[21] Ibidem. p. 26.

[22] Ibidem.

[23] Maria I da Inglaterra (Maria Tudor – 1516-1558) foi a primeira a reinar o país por direito próprio, de 1553 até a sua morte. Ela tentou resgatar o catolicismo matando protestantes, o que lhe deu o apelido de Bloody Mary (Maria Sangrenta). O famoso drink Bloody Mary (vodca e suco de tomate) é uma homenagem a esse sombrio apelido.

[24] CHESTERTON, G. K., Ortodoxia... Op. cit. p. 27.

[25] Ibidem. p. 28.

[26] Ibidem. p. 29.

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