Ortodoxia:
Capítulo 4: O Estandarte do Mundo
Este
é o quinto resumo do livro intitulado Ortodoxia, de 1908, cujo autor é Gilbert
Keith Chesterton (1874-1936). Volto a dizer o que consta
dos outros textos, não busco ser pretencioso a ponto de pretender substituir o livro
do autor, que é um clássico. Mas, ouso emitir opiniões pessoais, às vezes,
discordando das posições do autor.
Chesterton
inicia dizendo que quando criança ouvia dizer existentes humanos curiosos
otimistas e pessimistas e que “...o otimista acreditava que este mundo era tão
bom quanto poderia ser, enquanto o pessimista acreditava que era tão mau quanto
poderia ser”.
Ele, então, faz um paradoxo para dizer que tais afirmações não podem subsistir
porque o homem está na posição no mundo, antes de o próprio homem existir. E
então vem a ideia do estandarte, historicamente utilizado pelos comandantes nas
balhas militares de guerra, afirmando: “...Lutou pelo estandarte, e muitas
vezes conquistou vitórias heroicas, antes de ter se alistado. Para resumir o
assunto, ele é leal muito antes de qualquer admiração”.
No
Capítulo 3, primeiro resumo que postei, o autor – segundo ele mesmo – tentou
demonstrar que o sentimento primário atrativo é maravilhosamente expresso nos
contos de fadas. A aceitação do universo pelo autor não é otimismo, está mais
próxima de patriotismo. É uma questão de lealdade primária. Não é a tristeza ou
a alegria do mundo que nos leva a o amar. Argumentos otimistas e pessimistas são
argumentos favoráveis para o patriota amar o seu país.
Chesterton
chama a atenção para um bairro de Londres – Pimlico, o qual, na sua época,
parecia ser descuidado -para dizer que isso ocorria por falta de amor. Afirma que
um homem que ama uma mulher lhe oferece adornos, “não para ocultar o que é
horrível, mas para decorar o que já é adorável”. Logo em seguida, arremata: “Os
povos primeiro cultuaram um lugar e depois conquistaram a glória para ele. Os
homens não amaram Roma porque ela era grandiosa: ela se tornou grandiosa porque
os homens a maram”.
O
autor diz que refutar o contrato social, como o fizeram os ingleses, é um erro.
Porém, o erro do contrato social está em pressupor que a moral decorreu de um
consenso consciente, por exemplo, não tente me matar e não tentarei te matar,
visto que na verdade foi a partir da religião que a moral se construiu. Os dez mandamentos são ordens eminentemente
militares, que os levaram a proteger a arca de Deus e perceberem serem
corajosos. Não cultivaram o asseio, tendo descoberto que purificar o santuário
os fez sentirem limpos. A anarquia não tinha lugar porque ameaçava a santidade.
Ao dedicarem um dia a Deus descobriram ter descoberto um feriado. Então, afirma
que essa devoção primária é o que nos faz alcançar um ponto peculiar e, também,
o único otimismo é apropriado é um tipo de patriotismo universal.
Chesterton
compara o amigo sincero ao antipatriota e ao pessimista porque ambos são, no
fundo, insinceros. O antipatriota constrói argumentos para afastar pessoas do
seu estandarte. Afirmar que o mal do pessimista é não possuir a lealdade
primária e sobrenatural às coisas. Ele “Não limpará o mundo, mas encobrirá os
seus erros”.
O
patriotismo é exaltado pelo autor, concluindo que quanto mais transcendental é o
seu patriotismo, mais prática é a sua política”. Então, Chesterton faz um
paralelo com a lealdade feminina, aduzindo:
Certos imbecis espalharam
a ideia de que o apoio incondicional da mulher ao marido significa que as
mulheres são cegas e nada enxergam. Dificilmente conheceram alguma mulher. As
mesmas mulheres que estão prontas para seus homens na alegria e na tristeza, em
seu convívio pessoal são quase morbidamente lúcidas a respeito da vacuidade das
suas desculpas e a dureza de suas cabeças.
Devemos
atualizar um pouco a situação social mundial e brasileira. Em países que
consideramos desenvolvidos, essas distinções entre homem e mulher já não tem
lugar. Nestas plagas tupiniquins, onde a civilização é tardia, ainda há muito a
corrigir. Porém, falar em “apoio incondicional da mulher ao homem”, mesmo no
Brasil, isso é um extremo que não se pode encontrar nos registros de estudos
sociológicos atuais. Não me canso de citar Harari, o qual evidencia, desde o
final de SAPIENS e em todo Homo Deus, que a sociedade do final do Século XX e
do início do Século XXI está doente e a doença é mental. Assim, talvez, algumas
exceções de mulheres desequilibradas ainda permitam falar em “apoio
incondicional”. Fora disso, a regra é o casamento fortalecer a sua natureza que
é dada pelo Direito (natureza jurídica) de contrato sui generis, só
sendo mantido pela vontade dos cônjuges.
O
autor critica William Makeapeace Thackeray (1811-1863) e Mathew Arnold (1822-1888), escritores ingleses, no
contexto da sua afirmação de que amor não é cego e sim obrigado e quanto mais
obrigado, menos cego ele é. “Esta se tornou, ao menos, minha posição sobre tudo
que era chamado otimismo, pessimismo e progresso. (...) Um homem deve se interessar
pela vida, e só depois pode se desinteressar por suas visões sobre ela”.
Chesterton
afirma que desejamos e aspiramos realizações contraditórias. Ao mesmo que
desejamos invadir um castelo de um ogro buscamos um casebre tranquilo para
sossegar. E conclui que o otimista racional fracassa enquanto o otimista
irracional tem êxito, visto que está pronto para esmagar todo universo para o
seu próprio bem. Então, menciona Henrik Johan Ibisen (1828-1906) para critica a proposta
de seu tempo de ser o suicídio bom. Ele contextua com William Archer
(1856-1924)
para afirmar a proposta deste de ser possível o bom suicídio por um centavo (um
suicídio em uma máquina automática), enquanto para Chesterton, o suicídio não é
apenas um pecado, é o pecado, inexistindo como falar em bom
suicídio. E o autor prossegue
criticando o suicida e o suicídio, declarando expressamente ser ele o pior dos
crimes. Continuando a crítica ao
suicida, o autor elogia a rispidez do cristianismo ao suicida, lembrando a “estaca
na encruzilhada para demonstrar o que o Cristianismo pensava do suicida”.
O
autor muda o enfoque da discussão sustentando:
Tem emergido nas
controvérsias modernas um hábito imbecil de dizer que este ou aquele credo
apropriado a uma época não o pode ser para outra. Certo dogma, dizem-nos, foi verossímil
no Século XII, mas não é mais no Século XX. (...) Aquilo que um homem pode
acreditar depende de sua filosofia, e não do relógio ou do século.
Chesterton
critica os pensadores cristãos do seu tempo, dizendo que fizeram elogios
insustentáveis ao Cristianismo, criando peculiaridade que este não tem: “...o
mais notável no Cristianismo é ter sido a primeira religião a pregar o
Cristianismo. Sua peculiaridade era ser peculiar, e a simplicidade e a
sinceridade não peculiares, mas sim ideais óbvios para toda a humanidade”. Afirma
que os últimos estóicos, exemplificando com Marco Aurélio (121-180), ao exemplo da doutrina
Quaker, creem na existência de uma Luz Interior. Chesterton afirma que “De
todas as religiões horríveis, a mais horrível é a do culto do deus interior.
(...) o Cristianismo veio ao mundo para afirmar que um homem (...) [tem que]
contemplar com entusiasmo e admiração um companheiro e um comandante divino
(...) como um exército e o seu estandarte”.
Rejeito
toda proposição construída no sentido de nos tornarmos deuses ou semideuses. Há
muito tempo que um livro teve muito espaço no Brasil, o qual tem por fundamento
a ideia de que se alimentarmos o nosso subconsciente com bons pensamentos e positividade,
poderemos alcançar quilo que desejamos. Mais recentemente, essa
versão veio como “poder da atração”, também insustentável.
Chesterton
continua criticando o estoicismo e sugere hipocrisia ao fazer uma relação dos
estoicos com Juliano, o Apóstata (331-363). Também, atribui aos
últimos estoicos o pessimismo e reitera a afirmação de que Marco Aurélio o era,
afirmando que eles buscavam resposta no mundo interior, enquanto o Cristianismo
trouxe A Resposta, separando Deus e o cosmo. Esse é o postulado central do Cristianismo,
para o qual Deus ao criar o mundo o libertou.
A
separação de Deus em relação ao mundo e ao homem continua sendo objeto da
argumentação do autor. Ele aduz que o otimismo foi invertido e que o Cristianismo o fez perceber o otimismo com
uma simplicidade repentina. “...Mas todo o otimismo de nossa época era falso e
desencorajador por tentar provar que nos encaixamos no mundo. O otimismo
cristão se baseia no fato de que não nos encaixamos no mundo”. E Chesterton conclui o
capítulo afirmando que o Cristianismo supriu uma lacuna nele, permitindo sentir
felicidade e ser otimista.