Escrevi
três textos, visto que estou resumindo
o livro Ortodoxia, de 1908, cujo autor é Gilbert Keith Chesterton (1874-1936). Espero
que o leitor leia a íntegra do livro, cuja leitura é extremamente agradável.
Não é atoa que é um clássico.
O
capítulo se inicia assim:
O LINGUAJAR DAS RUAS
não é somente flexível e sutil: uma figura de linguagem pode frequentemente se
enfiar num buraco pequeno demais para uma definição. Expressões como “por as
cartas na mesa” ou fazer nas coxas” poderiam ser cunhadas pelo
Sr. Henry James em uma busca desesperada pela precisão verbal.
Chesterton
passa pelo adágio popular de ter um homem “o seu coração no lugar certo” para
dizer que o mundo do seu tempo era bom, em certos lugares exageradamente bom,
mas que o sistema religioso foi estilhaçado pelo Cristianismo da reforma e
declara que “...O mundo moderno é cheio antigas virtudes cristãs que
elouqueceram. E enlouqueceram porque foram isoladas umas das outras, vagando
sozinhas”.
Chesterton
menciona Blatchford, fazendo severas críticas e
paradoxalmente o elogiando. Continua o paradoxo elogiando o inquisidor Tomás de
Torquemada (1420-1498) e criticando o escritor libertário Émile Zola
(1840-1902), presumivelmente assassinado por ter escrito uma carta aberta
intitulada J’accuse (Eu Acuso), publicada em 13.1.1898, acusando o
governo francês de antissemitismo por julgar e condenar o Capitão Alfred
Dreyfus por traição. E, sobre esse paralelo feito diz: “Mas, um caso bem mais
significativo do que este da verdade e da compaixão pode ser descoberto no
incrível processo de deslocamento da humildade”.
O
autor elogia a humildade expondo:
...se tornou evidente
que se um homem quer tornar seu mundo grande, deve sempre tornar a se mesmo
pequeno. (...) É impossível apreciar qualquer coisa sem a humildade – até mesmo
o orgulho.
Chesterton
critica a humildade do seu tempo expondo:
Pois a antiga
humildade tornava um homem cético sobre seus esforços, o que poderia fazer com
que se esforçasse mais. Mas, a nova
humildade torna um homem cético sobre seus objetivos, o que o levará a
abandonar completamente todo esforço.
Sobre
o objetivo do Capítulo 1, o autor expõe:
O capítulo anterior se
preocupou com que um fato observável que todo perigo de morbidez advém da razão
e não da imaginação. Não tinha a intenção de atacar a autoridade da razão, mas
sim de defendê-la em última instância. E ela precisa ser defendida, já que
todo mundo moderno está em guerra contra a razão, e a torre já vacila.
Nesse
contexto de defesa da razão, Chesterton defende que a austeridade dos antigos
se baseava na razão. Também, as cruzadas pois se tudo poderia ser questionado,
até a própria razão seria colocada em xeque. Em seguida, declara que a
autoridade religiosa foi opressiva e irracional, assim como todo sistema legal,
especialmente o da época da edição do livro, anos de 1907/1908, insensível e
repleto de uma cruel apatia.
O
autor afirma: “...Quando a religião se vai, a razão está prestes a se esvair.
Pois ambas são fontes primárias e autoritárias”. Curiosamente, no Brasil,
temos o equivocado adágio popular que “não se discute política, religião e
futebol”. Política pela própria natureza da polis (cidade), deve ser
discutida porque é a sociedade em sua governança, a religião pressupõe fé e o
futebol paixão. De todo modo, digo, precisam ser discutidos, exigindo
civilidade nos debates, uma vez que a intolerância e a paixão doentia geram
conflitos e violência. Entretanto, conforme o autor afirma, a religião é
autoritária, mitigando a possibilidade de discussão.
Em
seguida, o autor faz uma afirmação interessante: “Descartes disse: ‘Penso logo
existo’. O evolucionista filosófico inverte e transforma o epigrama em negação.
Ele diz: ‘Não existo, logo não posso pensar’.”
O
autor volta a citar e criticar o escritor fabiano Herbert George Wells
(1866-1946), depois cita o filólogo Friedrich Wilhelm Nietzshe (1844-1900) afirmando: “Nietzsche:
deu início à ideia absurda de que os homens outrora acharam bom aquilo que hoje
chamamos de mau”. Esse erro de Chesterton
está no contexto da sua defesa da tradição (veja-se a defesa da tradição no
Capítulo 3, conforme anteriormente resumi).
Chesterton
foi extremamente ofensivo à memória de John Milton (1608-1674), um escritor
londrino defensor influente da história da liberdade de expressão e liberdade
de imprensa. A seguir, tece duras críticas ao, também escritor, Alfred Tennyson
(1809-1892), apenas porque este último defende mudanças constantes danas
rotações do mundo. Aduzindo Chersterton que
“A mudança perpétua é a rotina mais limitada e pesada em que um homem pode
viver”. Diversamente, aqui me
coloco como um ser pensante e que existe para dizer que a mudança é essencial.
A evolução é o que nos torna melhores.
O
autor menciona o pragmatismo para dizer que adere a ele para dizer que “a
verdade objetiva aparente não é tudo; há uma necessidade forçosa de crer em
coisas que são necessárias à mente humana; (...) precisamente a crença na
verdade objetiva. (...) O pragmatismo extremo é tão desumano quanto o
determinismo que ele tão fortemente ataca”.
George
Bernard Shaw (1856-1950) foi objeto de crítica, fazendo
nisso uma relação a Wells, afirmando Chesterton que eles não conseguiram fazer
uma clara distinção entre vontade e felicidade, visto que a felicidade a pessoa
pode testar, enquanto que a vontade que leva a pessoa a atos malucos em busca
da felicidade não é um teste e sim o que determina a pratica de tais atos.
O
autor critica o livre-pensamento inglês da sua época, voltando a mencionar
Bernard Shaw, Nietzsche e H.G.Wells, momento em que passa pelo poeta escocês
John Davidson (1857-1909), tudo para se opor aos defensores da vontade,
afirmando que humanidade deseja uma moralidade comum uma lei contra a qual Nietzsche
e Davidson se rebelam, declarando:
Todos os adoradores
da vontade, de Nietzsche ao Sr. Deividson, são, na verdade completamente
carentes de toda volição. Não podem desejar, e mal podem pedir e aspirar. Se
for exigida uma prova disso, ela pode ser facilmente encontrada no fato de que
sempre falam da vontade como algo que se expande e que se liberta. Mas a
verdade é precisamente o oposto. Todo ato da vontade é um ato de autolimitação.
Nesse sentido, todo ato é um ato de sacrifício. Quando um ato é escolhido, tudo
mais é rejeitado.
A
vontade e o anarquismo continuam sendo objeto de críticas. A leitura do livro é
extremamente oportuna ao momento porque o autor faz severas críticas ao
Jacobinos, expondo que o excesso de liberalismo nos aprisiona, asseverando: “Em
consequência, o homem moderno revoltado se tornou praticamente inútil para qualquer
revolta. Ao rebelar-se contra tudo, perdeu o direito de se rebelar contra
coisa”.
O
extremismo não é bom. Os Jacobinos sentavam à esquerda na Assembleia Nacional
da França (a dicotomia esquerda-direita na política nasce daí), o que o autor
se manifesta contrário, contra o extremismo. Nisso tem a minha concordância. Eu
gostaria de ser mais comedido e menos temperamental do que sou. Sou muito
passional e sinto esse mal na minha carne. De todo modo, sou oficialmente idoso
e a experiência já me deixa medroso e menos aventureiro, portanto, menos
temperamental.
Nesse
contexto de combate ao movimento do pensamento-livre, Chesterton volta a
mencionar Nietzsche afirmando: “A loucura que o acometeu não foi um acidente.
Se Nietzsche não tivesse se tornado um imbecil, o nietzschianismo o teria
feito. O pensamento isolado e orgulhoso termina na idiotice. Todo homem cujo
coração não se abranda acaba perdendo os miolos”.
O
autor prossegue criticando o pensamento nietzschiano e passa pelo estado
espiritual de paz das religiões orientais, mencionando o Nirvana, e afirma:
“Aqui encerro (louvado seja o Senhor) a primeira e mais tediosa tarefa deste
livro – uma revisão grosseira do pensamento recente”. Então Chesterton passa a
demonstrar o que ele denomina de uma “visão da vida”, afirmando:
...posso ver a
inevitável colisão das filosofias de Schopenhauer, Tostói, Nietzsche e Shaw, tão
claramente quanto a inevitável colisão de dois trens poderia ser vista de um
balão. Estão todos no campo da vacuidade de um manicômio. Pois a loucura pode
ser definida como o uso da atividade mental até o ponto do abandono mental; e
eles estão quase lá.
Chesterton
continua a sua crítica, incluindo no rol Joseph Ernest Renan (1823-1932), afirmando que Renan
desacretida estórias sobrenaturais contrapondo-as com estórias naturais sem
qualquer fundamento. E o autor avança na
crítica a Nietzsche, Tostói e Renan, aduzindo que as críticas feitas confundem amor
pela humanidade e ódio pela desumanidade, manifestada a ira justa de Cristo em
Jerusalém. Com tais fundamentos conclui o capítulo afirmando que, não obstante
o esforço dos autores modernos tentaram diminuir a imagem de Cristo e se “quedaram
atônitos diante da Sua louca magnificência e Sua louca mansidão”.