sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O que dizer dos Médicos quando se está doente?

 

Resolvi escrever este texto porque estou bem melhor do que ontem, visto que encontrei um Médico que não cobrou “por fora” para fazer uma cirurgia. Depois que fiz colonoscopia tive certeza, não absoluta, de que estava com câncer. Daí, fiz ressonância magnética e a verossimilhança do câncer aumentou. Depois, fiz biópsia (procedimento cirúrgico) e a certeza ganhou o seu lugar. A seguir fiz prostatectomia radical robótica, a qual, dentre outras causas (idade, bucho flácido etc.), gerou hérnia inguinal bilateral. Tentei tratamento, mas os médicos que “aceitam o plano” COBRAM POR FORA.

Fiquei triste em ver o domínio do capitalismo incontrolável. No entanto, boas pessoas devem ser mencionadas, razão de mencionar algumas por – eu mesmo – as considerar boas. Outras não terão seus nomes mencionados porque o interesse econômico gera dúvidas sobre eventual bondade.

Feita a presente introdução factual, darei forma ao meu inconformismo, deixando claro que não quero prejudicar nenhum profissional. Porém, a economia não pode ser reitora da nossa vontade.

1. Um Plano de saúde digno

Nenhum plano de saúde digno de respeito precisa se humilhar a uma classe. Os preços devem ser dignos. Porém, nenhum plano de seguro de saúde pode se sujeitar à vontade de uma categoria que apenas quer se dar bem.

O Médico atende ao plano de saúde para eventual cirurgia e cobra valores por fora. Por que está no plano de Saúde?

A resposta plausível é a de que o profissional quer apenas captar potencial clientela, até porque quem paga um seguro de saúde particular caríssimo é potencialmente uma pessoa que pode arcar com os custos da cirurgia.

Pago, mais de R$ 8.500,00 (eu, mulher e filho) mensais para ter que “pagar por fora”?

O plano de saúde não é indigno. Indigno é o Médico por captar cliente criticando o plano de saúde ao qual aderiu.

2. Estar doente

A doença pode ser física ou mental. A mental, no meu caso, é de nascença, visto que sempre quis ser GRANDE, acho que me curei porque o que desejo é ser IMPORTANTE para um círculo pequeno de pessoas (família e amigos – é meio redundante porque na família tenho os maiores amigos). Mas, o câncer nos muda, sem muita importância para a história do mundo, apenas para a individual.

Expus no início ter uma doença. Desejo muito ser feliz. Na medida do possível, o sou. Mas, com Yuval Noah Harari, em Homo Deus, digo ser impossível a felicidade plena por todo o tempo de nossa vida, até porque só podemos ter parâmetros para a felicidade a partir do seu oposto, a tristeza.

O doente deseja cura. No Brasil, sou um felizardo, posso realizar cirurgias eletivas em curto prazo, o que me entristece é ver pessoas precisando de cirurgias urgentes e de emergência sendo negligenciadas.

No meu caso, a minha Cardiologista, Paula Fernanda Freitas Lima, com propriedade, meio em tom de bronca, disse:

– Não pague “por fora, você já paga muito para o plano de saúde!”.

A advertência foi importante. Procurei o meu Oncologista, Anderson Arantes Silvestrini, pessoa que já cuidou da minha mulher e outras pessoas da família, o qual me recomendou Sérgio Tamura, esse não cobra por fora. Então, rapidamente, iniciei o procedimento para a nova cirurgia.

3. Para não concluir

Não estou concluindo porque estou doente. Não fiz a cirurgia da hérnia e devo fazer uma de catarata senão ficarei cego. Pior, a “idosidade” (completei 60 anos em 14.8.2026) chegou com força: câncer de próstata antecipado, hérnia inguinal bilateral e catarata.

Sou doutor em Direito e não gosto de assim ser denominado nas relações cotidianas porque é um título acadêmico, reservado à academia. Médicos em regra, não são doutores, insistindo em assim serem chamados. Na prática, “doutor” é o barbeiro-cirurgião, aquele que efetivamente desenvolveu as cirurgias, ao exemplo de Ambroise Paré (1510-1590)

Tinha que mencionar o problema porque tenho um forte conflito com a ideia política do momento que é bipolar (esquerda-direita), sem ninguém se preocupar com o que efetivamente afeta o indivíduo, o centro de quaisquer núcleos sociais.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Ortodoxia: Capítulo 1: O Lunático

Ortodoxia: Capítulo 1: O Lunático[1]

Estou escrevendo resumos do livro Ortodoxia, de 1908, cujo autor é Gilbert Keith Chesterton (1874-1936). Iniciei pelo Capítulo 3 da obra[2] e depois resumi o prefácio e a introdução.[3] Agora seguirei a ordem do livro com os títulos que o autor deu aos capítulos. Pretendo permitir uma leitura célere do conteúdo do livro para aqueles mais apressados, sem dispensar a leitura do texto integral, até porque o autor é muito bom.

Corrobora Thomas Samuel Kuhn (1922-1996) ao argumento da importância da leitura do livro ao demonstrar que nenhuma teoria permanece como paradigma por muitos anos sem uma base sólida que a sustente. É o que se pode dizer do clássico livro Ortodoxia.

O primeiro capítulo do livro inicia com a grande questão:

– Os homens que efetivamente acreditam que vencerão na vida são lunáticos e estão em manicômios?

O autor afirma que a resposta é verdadeira.[4] Então, questionado sobre o fato de não ter um homem que acreditar em si mesmo, em quem deveria acreditar, Chesterton afirmou que escreveria um livro sobre isso.[5] Daí o Ortodoxia.

No livro, acredita-se que a ciência e a religião partem de fatos. Porém, “Alguns novos teólogos questionam o pecado original, que é a única parte da teologia cristã que pode ser realmente provada”.[6][7] Para Chesterton é correto afirmar:

Os maiores santos e céticos sempre tomaram o mal positivo como ponto de partida de seus argumentos. Se é verdade (como certamente o é) que um homem pode sentir uma felicidade requintada em esfolar um gato, então o filósofo religioso só pode chegar a duas deduções: negar a existência de Deus, como fazem todos os ateus; ou negar a união plena entre Deus e o homem, como fazem todos os cristãos. O novo teólogo aparentemente pensa que negar o gato esfolado é uma solução altamente racionalista.[8]

Chesterton cita R. J. Campbell para sustentar que há uma corrente cristã que nega o pecado humano.[9][10] E, de uma forma ímpar, ironicamente, faz a afirmação transcrita, que uma inferência lógica maluca que considerou presente no seu tempo.

De forma eloquente, o autor faz o paradoxo entre a loucura (do manicômio) e a negação do pecado para afirmar aquilo que é inegável na atualidade: os pensamentos modernos tendem levar o homem à loucura.[11][12]

Sem mencionar Erasmo de Roterdã, Chesterton critica aqueles que elogiam a loucura. Com todo respeito que tenho ao autor, peço licença para discordar porque já escrevi maravilhado pela leitura de Elogio da Loucura.[13] A seguir, o autor defende a imaginação, afirmando que ela não gera loucura, quem a causa é a lógica e o racionalismo.[14]

O autor nega a hipótese de serem os lunáticos autores de ações sem causas. Afirma que as pessoas conscientes são as que mais praticam atos incausados, por exemplo, assobiar enquanto caminha, chutar o próprio calcanhar etc. “É o homem feliz que faz coisas sem sentido; o fraco é doente demais para o ócio”.[15] E continua: “...De fato, o dito comum sobre a insanidade é enganador: o louco não é o homem que perdeu sua razão, mas sim aquele que perdeu tudo exceto a razão”.[16]

Chesterton menciona William Cowper (1731-1800), um poeta e musicista deprimido que encontrou refúgio na fé cristã. Aduz que Cowper foi condenado por João Calvino (1509-1564).[17] Segundo o autor, John Gilpin[18] quase o salvou.[19] Mais adiante, nesse contexto de rejeição ao livre-arbítrio, afirma:

...Nem a ciência moderna nem a religião antiga acreditam na completa liberdade do pensamento. A teologia rejeita certos pensamentos como blasfemos. A ciência rejeita certos pensamentos como mórbidos. Por exemplo, algumas sociedades religiosas moderadamente desencorajam os homens a pensar sobre o sexo.[20]

Nessa linha, o autor afirma que a ciência moderna é contra tratar de assuntos mórbidos, como a morte, embora ela seja um fato inevitável. Chesterton, também, afirma ser difícil ao maníaco conseguir se salvar porque isso só é possível pela vontade e pela fé.[21] Aduz que os “doutores” (provavelmente fazendo referência aos Médicos) e os psicólogos são intolerantes com os lunáticos, assim como o foi intolerante Maria, a Sanguinária.[22][23]

O autor prossegue na sua relação entre os cientistas da sua época e os lunáticos, tentando demonstrar que a loucura está mais visível nos primeiros. Então, avança para o materialismo, dizendo que ele tem uma “simplicidade louca”,[24] Ele evolui criticando a visão simplista dos materialistas. Também, qualquer filosofia materialista é mais limitadora do que qualquer religião,[25] equiparando os materialistas aos loucos por não terem dúvidas.[26]

Ao final do capítulo o autor discorre sobre a distinção e aproximação entre o materialista e o lunático, expondo haver maior grau de sensibilidade nesse último, até porque nele há imaginação livre, enquanto o materialista é determinista. E encerra o capítulo afirmando: “...a lua é completamente razoável: é a mãe de todos os lunáticos e lhes deu seu nome”.[27]



[1] Noutra tradução, “O Maníaco”. CHESTERTON, Gilbert K. Ortodoxia. 2. ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2012. Disponível em: <https://books.google.com.br/books?id=aybgh8gvofUC&printsec=frontcover&hl=pt-BR&source=gbs_atb#v=onepage&q&f=false>. Acesso em: 7.9.2026, às 9h20.

[2] MESQUITA JÚNIOR, Sidio Rosa de. Relativismo e determinismo em Chesterton e em mim. Disponível em: <https://sidiojunior.blogspot.com/2026/08/relativismo-e-determinismo-em.html>. Acesso em: 30.8.2026, às 0h31.

[3] MESQUITA JÚNIOR, Sidio Rosa de. Prefácio e introdução ao livro intitulado Ortodoxia. Disponível em: <https://sidiojunior.blogspot.com/2026/08/prefacio-e-introducao-ao-livro.html>. Acesso em: 30.8.2026, às 18h.

[4] CHESTERTON, G. K., Ortodoxia. 2. ed. Campinas: CEDET, 2018. p. 15-16.

[5] Ibidem. p. 16.

[6] Ibidem. p. 17.

[7] Sem fé, a criação e o pecado original estão longe de qualquer prova. Parece-me que o autor invoca a própria fé para tal afirmação.

[8] CHESTERTON, G. K., Ortodoxia... Op. cit. p. 17.

[9] CHESTERTON, Gilbert K. Ortodoxia. 2. ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2012. Disponível em: <https://books.google.com.br/books?id=aybgh8gvofUC&printsec=frontcover&hl=pt-BR&source=gbs_atb#v=onepage&q&f=false>. Acesso em: 7.9.2026, às 9h20.

[10] Reginald John Campbell (1867-1958) foi um popular reverendo anglicano da Inglaterra, um dos expoentes da “Nova Teologia”, de 1907. Consultei a Inteligência Artificial do Google e ela corretamente sintetizou:

O termo "Nova Teologia" associado ao ano de 1907 refere-se a dois fatos históricos muito importantes, um no mundo protestante britânico e outro no mundo católico romano.

O que cada um deles preconiza depende de qual cenário estamos olhando:

Em 1907, o pastor congregacionalista britânico Reginald John Campbell publicou o famoso livro chamado The New Theology (A Nova Teologia). Esse movimento tentava adaptar a fé cristã às descobertas da ciência da época (como a evolução de Darwin) e à filosofia moderna.

Esse pensamento defendia que:

>> Deus está em tudo (Imanência Divina): Deus não é um ser distante sentado em um trono no céu. Ele está expressando a si mesmo dentro do universo e dentro de cada ser humano.

>> A humanidade é uma só com Deus: Jesus Cristo não veio para pagar uma dívida de sangue pelo pecado, mas sim para mostrar o exemplo perfeito de como a nossa alma está ligada ao Criador.

>> O "Pecado" é o egoísmo: O pecado não é uma mancha herdada de Adão, mas sim o ato de o homem colocar a si mesmo acima do bem comum e da união com o resto do mundo.

>> Foco no progresso social: A igreja deveria focar em melhorar a vida das pessoas no presente (justiça social), e não apenas em salvá-las para o pós-morte.

No mesmo ano de 1907, o Papa São Pio X publicou uma famosa carta oficial chamada Encíclica Pascendi Dominici Gregis. Nela, o Vaticano usou termos parecidos para condenar e proibir o que chamou de "Modernismo".

Os críticos católicos tradicionais diziam que essa mentalidade (que mais tarde, nos anos 1940, ganhou força com o nome de Nouvelle Théologie ou "Nova Teologia") trazia grandes erros. De acordo com a visão do Vaticano em 1907, o que se combatia nessas ideias era:

>> Relativismo na Verdade: A ideia de que as verdades religiosas mudam e evoluem com o passar do tempo de acordo com a cultura.

>> Subjetivismo: A crença de que a fé nasce de um sentimento ou de uma necessidade interna do coração humano, e não de fatos reais históricos revelados por Deus.

>> Desprezo pela Tradição: O costume de deixar de lado a filosofia tradicional da Igreja (como os ensinos de Santo Tomás de Aquino) para seguir filósofos modernos.

[11] Ibidem. p. 18.

[12] Posso estar errado. Sei que Harrari errou em parte. Mas, na parte em que ele afirmou que o homem está doente e a sua doença é mental, disso não discordo. Só não vejo isso como um problema da ciência, talvez seja mais da economia e da comunicação, as quais geram desejo incontrolável pelo poder: financeiro, projeção social, político etc.

[13] MESQUITA JÚNIOR, Sidio Rosa de. Machismo puro sangue: a minha percepção da obra elogio da loucura, de Erasmo de Rotterdam, nos anos de 2017 a 2020. E a felicidade? pode ser conquistada? Publicação: 19.9.2021. Disponível em: <https://sidiojunior.blogspot.com/search?q=Elogio+da+loucura>. Acesso em: 4.9.2026, às 20h11.

[14] CHESTERTON, G. K., Ortodoxia... Op. cit. p. 20.

[15] CHESTERTON, G. K., Ortodoxia... Op. cit. p. 22.

[16] Ibidem. p. 23.

[17] Embora Jehan Calvin (João Calvino) tenha antecedido Cowper, o seu determinismo marcante (o homem não tem liberdade de escolha – livre-arbítrio – e sim Deus é quem escolhe os homens que serão salvos e aqueles que não se desviarem dos seus mandamentos jamais perderão a salvação eterna) é contrário à ideia de liberdade de Cowper ter se curado da sua depressão ao escolher o cristianismo. Essa é a minha interpretação da suposta condenação feita por João Calvino.

[18] Johan Gilpen parece ser uma pessoa real de nome Bayer. Mas, foi um personagem da famosa balada de Cowper intitulada The Diverting History of John Gilpin.

[19] CHESTERTON, G. K., Ortodoxia... Op. cit. p. 20.

[20] Ibidem. p. 25.

[21] Ibidem. p. 26.

[22] Ibidem.

[23] Maria I da Inglaterra (Maria Tudor – 1516-1558) foi a primeira a reinar o país por direito próprio, de 1553 até a sua morte. Ela tentou resgatar o catolicismo matando protestantes, o que lhe deu o apelido de Bloody Mary (Maria Sangrenta). O famoso drink Bloody Mary (vodca e suco de tomate) é uma homenagem a esse sombrio apelido.

[24] CHESTERTON, G. K., Ortodoxia... Op. cit. p. 27.

[25] Ibidem. p. 28.

[26] Ibidem. p. 29.

[27] Ibidem. p. 35.

domingo, 30 de agosto de 2026

Prefácio e Introdução ao livro intitulado Ortodoxia

 

Iniciei uma série de resumos do livro Ortodoxia, de 1908, cujo autor é Gilbert Keith Chesterton (1874-1936). Comecei pelo Capítulo 3 da obra, intitulando o resumo como “Relativismo e determinismo em Chesterton e em mim”.[1] Nele apresentei a definição de ortodoxia e agora continuarei a partir do prefácio feito pelo próprio autor em uma única página.

Prefácio

O autor diz que Ortodoxia deve acompanhar seu outro livro intitulado Hereges,[2] publicado em 1905, porque neste último se limitou a criticar as filosofias correntes sem oferecer uma teoria alternativa.

Segundo Chesterton o livro é uma resposta às críticas e uma explicação de como ele chegou à Fé Cristã. Assim, o livro é organizado sobre o princípio positivo de um enigma e sua resposta.

Chesterton afirma que nos primeiros capítulos apresenta suas especulações solitárias e sinceras e, logo em seguida, como tais especulações foram satisfeitas pela Teologia Cristã o levando à percepção de que estava diante um credo realmente convincente.[3]

Introdução: Em defesa de tudo mais

O autor afirma que foi sugestionado a escrever Ortodoxia pelas críticas de George Slythe Street (1867-1936) ao dizer que ele não apresentou uma filosofia em Hereges. Porém, afirma que passou a acreditar em uma filosofia que Deus e a humanidade a fizeram e ela o fez.

Chesterton declara:

Precisamos enxergar no mundo uma combinação da ideia de espanto e da ideia do acolhimento. Precisamos ser felizes nesta terra de maravilhas sem nos instalar no mero conforto; e buscarei mostrar nestas páginas que esse é acima de tudo o triunfo do meu credo.[4]

O autor faz uma autocrítica depreciativa a si mesmo, aduzindo que tentou fundar a sua própria heresia. Mas, ao dar os últimos retoques ao livro descobriu que era a ortodoxia.[5]

Quando defendi a minha dissertação de mestrado, ouvi duras críticas da banca examinadora. Num dado momento afirmei não reler o que escrevo. Isso parece com o que Chesterton afirma: “Escrevi o livro, e nada neste mundo me induziria a lê-lo”.[6]

Por fim, o autor alerta para o fato de que o livro não é um tratado eclesiástico e sim uma “forma desleixada de biografia”.



[1] MESQUITA JÚNIOR, Sidio Rosa de. Relativismo e determinismo em Chesterton e em mim. Disponível em: <https://sidiojunior.blogspot.com/2026/08/relativismo-e-determinismo-em.html>. Acesso em: 30.8.2026, às 0h31.

[2] CHESTERTON, G. K., Hereges. Campinas: Elesiae, 2010.

[3] CHESTERTON, G. K., Ortodoxia. 2. ed. Campinas: CEDET, 2018. p. 7.

[4] Ibidem. p. 11.

[5] Ibidem. p. 13.

[6] Ibidem. p. 14.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Relativismo e determinismo em Chesterton e em mim

O propósito deste texto é uma apreciação do paradoxo relativismo-determinismo, feito pelo Príncipe do Paradoxo, Gilbert Keith Chesterton (1874-1936), em seu clássico livro Ortodoxia[1] (1908),[2] o que está exposto no Capítulo 3 da obra.

Já fui agraciado com excelentes livros. O último grande livro que ganhei é um clássico que já li, de alguma biblioteca, e que desejava comprar. É um livro que passeia por muitos assuntos que efetivamente medito com certa frequência. Assim, começo por aquele capítulo que é o que mais me prende na atualidade que é a dicotomia relativismo-determinismo. E, por favor, deem atenção às notas de rodapé/de fim porque nelas, também, insiro as minhas efetivas posições.

Sob o título A Ética do País das Fadas, Chesterton inicia o Capítulo 3 com uma afirmação que me aflige e que o afetou profundamente:

“Sim, quando somos jovens temos essas ideias e esses castelos de areia; mas na maturidade tudo se desmancha como as nuvens, e terminamos por acreditar na política pragmática, no uso do maquinário que temos em mãos e na conformidade do mundo como ele é”. Era assim, ao menos, que os filantropos anciões e veneráveis que agora jazem em seus honrados túmulos, falavam a mim quando era um garoto.[3]

Já não sou jovem, sou oficialmente idoso, em 14.8.2026, Wagner Henrique, um amigo com quem trabalho na Procuradoria Federal junto à Fundação Universidade de Brasília, ente autárquico criado pela Lei 3.998, de 15.12.1961, para organizar e manter a Universidade de Brasília, foi quem me deu o livro o livro como presente de aniversário (60 anos de idade). E tenho uma pequena discordância em relação ao texto transcrito porque não consigo ver facilmente filantropos autênticos. Um filantropo seria uma pessoa voltada a defender o social, defender pessoas, distribuir a riqueza etc. Vejo o ser humano como vocacionado a se proteger, até mesmo da morte, fazendo as coisas por interesses pessoais, ainda que seja “comprar” um lugar aos céus por meio da “meritocracia de fazer o bem”.[4] Devo, também, ressaltar que o autor rechaça a afirmação transcrita porque não perdeu suas crenças por um suposto pragmatismo utilitário. Ele acredita no liberalismo, não nos “liberais”.

Criado e educado como liberal, Chesterton acreditou no liberalismo. Assim como eu, acredita que as coisas mais comuns são extraordinárias, melhores que as excepcionais.[5] De fato, nada é melhor do que buscar uma vida harmônica na família e no trabalho do que tentar ser diferente em tudo. Quem vive “diferentão”, enfrenta muitos obstáculos, pelos quais já passei. Hoje, procuro ser ordinário, normal ou comum.

É interessante que o autor se considere experiente, não jovem, aos 34 anos de idade, expondo como se fosse um idoso as suas experiências da vida. É nesse contexto que Chesterton afirma que concluiu que a democracia é voltada a atender as coisas essenciais e comuns aos homens, não as particulares.

A democracia não se opõe à tradição. A tradição é a democracia que se estende no tempo. “Aquele que cita algum historiador alemão contra a tradição da Igreja Católica, por exemplo, apela à aristocracia”. A lenda, por ser de uma maioria é mais crível que um livro, que normalmente é escrito por um único homem. Os ricos tendem a afirmar que os eleitores de bairros pobres são ignorantes. Para Chesterton tradição e democracia são a mesma ideia.[6]

O autor afirma que se ele tem um viés, esse é em favor da democracia e, portanto, da tradição. Prefere acreditar nas fábulas das multidões em relação aos fatos das coquetes. Afirma acreditar em contos de fadas, que não são fantasias. O que são anormais são o racionalismo e a religião. Seguindo nessa linha de valorizar os contos de fadas, o autor afirma: “Preocupo-me com uma certa forma de olhar a vida, que foi em mim gerada pelos contos de fadas e que desde então foi humildemente ratificada pelos simples fatos”.[7]

O autor informa que nas relações mentais existem leis, o que inexiste nas relações dos fatos físicos, onde existe somente estranhas repetições e, em nota de rodapé, esclarece:

As assim chamadas “leis da natureza” só o são na medida que são abstratas. Por exemplo, a lei da queda dos corpos de Galileu só é válida com exatidão no vácuo absoluto, que é uma condição impossível e uma mera abstração. O determinismo vale para a equação em um mundo de universalidade e abstração, mas nunca para o nosso mundo real e concreto.[8]

A crítica de Chesterton à Lei da Gravitação Universal de Newton (Isaac Newton, 1643-1727) é recorrente, expondo que nos contos de fadas não há determinismo ou relação de causa e efeito, enquanto os cientistas, de dois enigmas obscuros extraem uma resposta cristalina.[9]

No mundo das fadas evitamos a palavra “lei”, enquanto o mundo da ciência tem especial apreciação por ela. Na linha da descrença nas relações de causa e efeito, de como um ovo se transforma em um pássaro, Chesterton conclui:

As únicas palavras que já me saciaram como uma descrição da Natureza são os termos usados nos contos de fadas, como “feitiço”, “encanto” e “magia”. Elas expressam a arbitrariedade do fato e o seu mistério. A árvore cresce porque é uma árvore mágica. A água desce morro abaixo porque é encantada. O sol brilha porque é encantado.[10]

É interessante como o autor segue expondo que tanto nos contos de fadas, quando na vida, a felicidade, o “dar certo”, sempre está diante de uma condição. A vida, assim como o cristal, é frágil, o que não significa que não seja duradoura.

O autor continua dizendo ser mais racional o mundo das fadas que o das ciências naturais. Foi complicado distinguir a babá dos contos que ela lhe falava. Também critica os deterministas do Século XIX por serem cheios de dúvidas, duvidarem até do próprio momento em que se encontravam.[11]

A repetição é corrente na natureza. Pode ser que Deus fale com o sol e com a lua, diariamente, “de novo” para que eles brilhem nos céus. Deus é eternamente jovem tendo uma vitalidade constante. Nós, ao contrário, nos cansamos e, também, morremos.

O autor afirma que “No país das fadas havia uma lei real, que poderia ser violada, como toda lei por definição o pode”.[12] Mas, sequer temos o direito de, no universo cósmico, podermos desafiar a lei.

Em meio às conclusões do autor de que o mundo não se autoexplicava, entende que há algo pessoal no mundo como em uma obra de arte. Afirma que há beleza no mundo e que “Somos também devedores de obediência ao ser que nos criou, não importando o que ele é. (...) E durante todo esse tempo não tinha sequer pensado na teologia cristã”.[13]

O que se vê nesse Capítulo 3 resumido é que o autor, embora critique as leis das ciências naturais, conclui em favor do criacionismo e de um determinismo que fundamenta a teologia cristã. Ao contrário, sou relativista, não conseguindo concatenar todo universo à uma criação divina e desdobramentos causais, ao menos conforme é exposta na Bíblia e na teologia cristã.

De todo modo, a leitura do livro é agradável. Eu a recomendo, tanto é que estou relendo o livro.



[1] A inteligência artificial do Google, sem reparos a fazer, assim define ortodoxia:

Ortodoxia significa a conformidade estrita com um conjunto de princípios, regras ou crenças tradicionais estabelecidos por uma doutrina. A palavra vem do grego orthos (reto, correto) e doxa (opinião ou fé), indicando literalmente a "fé correta" ou o "ensino verdadeiro".

(Disponível em: <https://www.google.com/search?q=O+que+significa+ortodoxia%3F&oq=O+que+significa+ortodoxia%3F&gs_lcrp=EgZjaHJvbWUyBggAEEUYOTIHCAEQABiABDIHCAIQABiABDIHCAMQABiABDIICAQQABgWGB4yCAgFEAAYFhgeMggIBhAAGBYYHjIKCAcQABgKGBYYHjIICAgQABgWGB4yCAgJEAAYFhge0gEIOTc3OGowajmoAgawAgHxBaqZ4JPyxLno&sourceid=chrome&source=chrome.ob&ie=UTF-8>. Acesso em: 23.8.2026, às 9h30).

[2] CHESTERTON, G. K., Ortodoxia. 2. ed. Campinas: CEDET, 2018.

[3] CHESTERTON, G. K., Ortodoxia. 2. ed. Campinas: CEDET, 2018. p. 57.

[4] Talvez o maior exemplo de filantropo da atualidade seja Bill Gates (nascido em 28.10.1955). Mas, não podemos esquecer que a sua imagem foi chamuscada no caso Jeffrey Epstein (1953-2019). Outro filantropo famoso é George Soros (nascido em 12.8.1930), um especulador do sistema financeiro, que pode ser um ideologista. Mas, sobre ambos, somente a história poderá dizer o quanto são pessoas que efetivamente buscaram o bem coletivo e ajudar os mais pobres.

[5] CHESTERTON, G. K., Ortodoxia. 2. ed. Campinas: CEDET, 2018. p. 58.

[6] CHESTERTON, G. K., Ortodoxia. 2. ed. Campinas: CEDET, 2018. p. 59-60.

[7] Ibidem. p. 62.

[8] Ibidem. p. 63.

[9] Ibidem. p. 64.

[10] Ibidem. p. 66.

[11] Ibidem. p. 74.

[12] Ibidem. p. 78.

[13] Ibidem. p. 82.

domingo, 26 de julho de 2026

Acerca da relatividade das razões para a felicidade

 

Há poucos dias, após um período de repouso, em recuperação de uma prostatectomia radical robótica, devido a um adenocarcinoma [GLEASON 7 (3+4)], percorri, de bicicleta, 15.990 metros. Então, cheguei em casa todo feliz pelo grande feito.

No almoço daquele dia, 10.10.2026, com a mulher e um filho à mesa, comentei sobre a relatividade da felicidade. Eu fiquei feliz porque consegui andar cerca de 16 km de bicicleta em menos de uma hora e imediatamente me lembrei de dois maratonistas, Sebastian Sawe (Quênia) e Yomif Kelelcha (Etiópia), que, em 26.4.2026, terminaram a Maratona de Londres (42.195 metros) em menos de duas horas.

O primeiro terminou a maratona em 1h59min30s e o segundo em 1h59min41s. Assim, eles caso completem 21 km, a pé, em mais de uma hora ficarão muitos tristes. Pior, imaginem, Yomif Kelelcha bateu o recorde mundial e chegou em segundo lugar. Será que ficou triste?

Eu sempre me pego pensando acerca da vida e acabo refutando, na maioria das vezes, o determinismo e o criacionismo bíblico. O determinista fica vinculado ao causalismo, tudo se resolve em uma relação de causa e efeito. Chego à conclusão que sou relativista. Mas, no meu relativismo, até ele próprio é relativo, ou seja, pode ser que tudo tenha uma causa primeira e se desenvolva em uma complexa teia causal.

É nesse contexto que insiro a justiça e a felicidade. Elas são relativas e têm forte vocação valorativa. Há sempre uma carga valorativa na felicidade e o que faz uma pessoa feliz ou considerar justo o resultado de determinado ato. Com isso, aceito críticas à minha posição e continuarei feliz por ter completado 15.990 metros, de bicicleta, em menos de uma hora.