Ortodoxia:
Capítulo 1: O Lunático[1]
Estou
escrevendo resumos do livro Ortodoxia, de 1908, cujo autor é Gilbert Keith
Chesterton (1874-1936). Iniciei pelo Capítulo 3 da obra[2] e depois resumi o prefácio
e a introdução.[3]
Agora seguirei a ordem do livro com os títulos que o autor deu aos capítulos.
Pretendo permitir uma leitura célere do conteúdo do livro para aqueles mais
apressados, sem dispensar a leitura do texto integral, até porque o autor é
muito bom. Ademais, Thomas Samuel Kuhn (1922-1996) demonstrou que nenhuma
teoria permanece como paradigma por muitos anos sem uma base teórica sólida que
a sustente. É o que se pode dizer do clássico livro Ortodoxia.
O
primeiro capítulo do livro inicia com a grande questão:
– Os
homens que efetivamente acreditam que vencerão na vida são lunáticos e estão em
manicômios?
O
autor afirma que a resposta é verdadeira.[4] Então, questionado sobre o
fato de não ter um homem não ter que acreditar em si mesmo, em quem deveria
acreditar, Chesterton afirmou que escreveria um livro sobre isso.[5] Daí o Ortodoxia.
No
livro, acredita-se que a ciência e a religião partem de fatos. Porém, “Alguns
novos teólogos questionam o pecado original, que é a única parte da teologia
cristã que pode ser realmente provada”.[6][7] Para Chesterton é correto
afirmar:
Os maiores santos e
céticos sempre tomaram o mal positivo como ponto de partida de seus argumentos.
Se é verdade (como certamente o é) que um homem pode sentir uma felicidade
requintada em esfolar um gato, então o filósofo religioso só pode chegar a duas
deduções: negar a existência de Deus, como fazem todos os ateus; ou negar a
união plena entre Deus e o homem, como fazem todos os cristãos. O novo teólogo
aparentemente pensa que negar o gato esfolado é uma solução altamente
racionalista.[8]
Chesterton
cita R. J. Campbell para sustentar que há uma corrente cristã que nega o pecado
humano.[9][10] E, de uma forma ímpar,
ironicamente, faz a afirmação transcrita, que uma inferência lógica maluca que
considerou presente no seu tempo.
De
forma eloquente, o autor faz o paradoxo entre a loucura (do manicômio) e a
negação do pecado para afirmar naquilo que é inegável na atualidade: os
pensamentos modernos tendem levar o homem à loucura.[11][12]
Sem
mencionar Erasmo de Roterdã, Chesterton critica aqueles que elogiam a loucura.
Com todo respeito que tenho ao autor, peço licença para discordar porque já
escrevi maravilhado pela leitura de Elogio da Loucura.[13] A seguir, o autor defende
a imaginação, afirmando que ela não gera loucura, quem a causa é a lógica e o
racionalismo.[14]
O
autor nega a hipótese de serem os lunáticos autores de ações sem causas. Afirma
que as pessoas conscientes são as que mais praticam atos incausados, por
exemplo, assobiar enquanto caminha, chutar o próprio calcanhar etc. É o homem
feliz que faz coisas sem sentido; o fraco é doente demais para o ócio”.[15] E continua: “...De fato,
o dito comum sobre a insanidade é enganador: o louco não é o homem que perdeu
sua razão, mas sim aquele que perdeu tudo exceto a razão”.[16]
Chesterton
menciona William Cowper (1731-1800), um poeta e musicista deprimido que
encontrou refúgio na fé cristã. Aduz que Cowper foi condenado por João Calvino
(1509-1564).[17]
Segundo o autor, John Gilpin[18] quase o salvou.[19] Mais adiante, nesse
contexto de rejeição ao livre-arbítrio, afirma:
...Nem a ciência
moderna nem a religião antiga acreditam na completa liberdade do pensamento. A
teologia rejeita certos pensamentos como blasfemos. A ciência rejeita certos
pensamentos como mórbidos. Por exemplo, algumas sociedades religiosas
moderadamente desencorajam os homens a pensar sobre o sexo.[20]
Nessa
linha, o autor afirma que a ciência moderna é contra tratar de assuntos mórbidos,
como a morte, embora ela seja um fato inevitável. Chesterton, também, afirma
ser difícil ao maníaco conseguir se salvar porque isso só é possível pela
vontade e pela fé.[21] Aduz que os “doutores”
(provavelmente fazendo referência aos Médicos) e os psicólogos são intolerantes
com os lunáticos, assim como o foi intolerante Maria, a Sanguinária.[22][23]
O
autor prossegue na sua relação entre os cientistas da sua época e os lunáticos,
tentando demonstrar que a loucura está mais visível nos primeiros. Então, avança
para o materialismo, dizendo que ele tem uma “simplicidade louca”,[24] Ele evolui criticando a
visão simplista dos materialistas. Também, qualquer filosofia materialista é
mais limitadora do que qualquer religião,[25] equiparando os
materialistas aos loucos por não terem dúvidas.[26]
Ao
final do capítulo o autor discorre sobre a distinção e aproximação entre o
materialista e o lunático, expondo haver maior grau de sensibilidade nesse
último, até porque nele há imaginação livre, enquanto o materialista é
determinista.
[1] Noutra tradução, “O
Maníaco”. CHESTERTON, Gilbert K. Ortodoxia. 2. ed. São Paulo: Mundo Cristão,
2012. Disponível em: <https://books.google.com.br/books?id=aybgh8gvofUC&printsec=frontcover&hl=pt-BR&source=gbs_atb#v=onepage&q&f=false>.
Acesso em: 7.9.2026, às 9h20.
[2] MESQUITA JÚNIOR,
Sidio Rosa de. Relativismo e determinismo em Chesterton e em mim. Disponível
em: <https://sidiojunior.blogspot.com/2026/08/relativismo-e-determinismo-em.html>.
Acesso em: 30.8.2026, às 0h31.
[3] MESQUITA JÚNIOR,
Sidio Rosa de. Prefácio e introdução ao livro intitulado Ortodoxia. Disponível
em: <https://sidiojunior.blogspot.com/2026/08/prefacio-e-introducao-ao-livro.html>.
Acesso em: 30.8.2026, às18h.
[4] CHESTERTON, G. K., Ortodoxia.
2. ed. Campinas: CEDET, 2018. p. 15-16.
[5] Ibidem. p. 16.
[6] Ibidem. p. 17.
[7] Sem fé, a criação e
o pecado original estão longe de qualquer prova. Parece-me que o autor invoca a
própria fé para tal afirmação.
[8] CHESTERTON, G. K., Ortodoxia... Op. cit. p. 17.
[9] CHESTERTON, Gilbert K. Ortodoxia. 2. ed. São Paulo: Mundo
Cristão, 2012. Disponível em: <https://books.google.com.br/books?id=aybgh8gvofUC&printsec=frontcover&hl=pt-BR&source=gbs_atb#v=onepage&q&f=false>.
Acesso em: 7.9.2026, às 9h20.
[10] Reginald John Campbell (1867-1958) foi um popular
reverendo anglicano da Inglaterra, um dos expoentes da “Nova Teologia”, de
1907. Consultei a Inteligência Artificial do Google e ela corretamente
sintetizou:
O termo "Nova Teologia" associado ao
ano de 1907 refere-se a dois fatos históricos muito importantes, um no
mundo protestante britânico e outro no mundo católico romano.
O que cada um deles preconiza depende de qual cenário
estamos olhando:
Em 1907, o pastor congregacionalista britânico Reginald
John Campbell publicou o famoso livro chamado The New Theology (A
Nova Teologia). Esse movimento tentava adaptar a fé cristã às descobertas
da ciência da época (como a evolução de Darwin) e à filosofia moderna. [1, 2]
Esse pensamento defendia que:
>> Deus está em tudo (Imanência Divina):
Deus não é um ser distante sentado em um trono no céu. Ele está expressando a
si mesmo dentro do universo e dentro de cada ser humano. [1, 2]
>> A humanidade é uma só com Deus: Jesus
Cristo não veio para pagar uma dívida de sangue pelo pecado, mas sim para
mostrar o exemplo perfeito de como a nossa alma está ligada ao Criador.
>> O "Pecado" é o egoísmo: O
pecado não é uma mancha herdada de Adão, mas sim o ato de o homem colocar a si
mesmo acima do bem comum e da união com o resto do mundo.
>> Foco no progresso social: A igreja
deveria focar em melhorar a vida das pessoas no presente (justiça social), e
não apenas em salvá-las para o pós-morte.
No mesmo ano de 1907, o Papa São Pio X publicou
uma famosa carta oficial chamada Encíclica Pascendi Dominici Gregis.
Nela, o Vaticano usou termos parecidos para condenar e proibir o que chamou de
"Modernismo".
Os críticos católicos tradicionais diziam que essa
mentalidade (que mais tarde, nos anos 1940, ganhou força com o nome de Nouvelle
Théologie ou "Nova Teologia") trazia grandes erros. De acordo com
a visão do Vaticano em 1907, o que se combatia nessas ideias era:
>> Relativismo na Verdade: A ideia de que
as verdades religiosas mudam e evoluem com o passar do tempo de acordo com a
cultura.
>> Subjetivismo: A crença de que a fé
nasce de um sentimento ou de uma necessidade interna do coração humano, e não
de fatos reais históricos revelados por Deus.
>> Desprezo pela Tradição: O costume de
deixar de lado a filosofia tradicional da Igreja (como os ensinos de Santo
Tomás de Aquino) para seguir filósofos modernos.
[11] Ibidem. p. 18.
[12] Posso estar errado.
Sei que Harrari errou em parte. Mas, na parte em que ele afirmou que o homem
está doente e a sua doença é mental, disso não discordo. Só não vejo isso como
um problema da ciência, talvez seja mais da economia e da comunicação, as quais
geram desejo incontrolável pelo poder: financeiro, projeção social, político
etc.
[13] MESQUITA JÚNIOR,
Sidio Rosa de. Machismo puro
sangue: a minha percepção da obra elogio da loucura, de Erasmo de Rotterdam,
nos anos de 2017 a 2020. E a felicidade? pode ser conquistada? Publicação: 19.9.2021. Disponível em: <https://sidiojunior.blogspot.com/search?q=Elogio+da+loucura>.
Acesso em: 4.9.2026, às 20h11.
[14] CHESTERTON, G. K., Ortodoxia...
Op. cit. p. 20.
[15] CHESTERTON, G. K., Ortodoxia... Op. cit. p. 22.
[16] Ibidem. p. 23.
[17] Embora Jehan Calvin
(João Calvino) tenha antecedido Cowper, o seu determinismo marcante (o homem
não tem liberdade de escolha – livre-arbítrio – e sim Deus é quem escolhe os
homens que serão salvos e aqueles que não se desviarem dos seus mandamentos
jamais perderão a salvação eterna) é contrário à ideia de liberdade de Cowper
ter se curado da sua depressão ao escolher o cristianismo. Essa é a minha
interpretação da suposta condenação feita por João Calvino.
[18] Johan Gilpen parece ser uma pessoa real de nome
Bayer. Mas, foi um personagem da famosa balada de Cowper intitulada The
Diverting History of John Gilpin.
[19] CHESTERTON, G. K., Ortodoxia... Op. cit. p. 20.
[20] Ibidem. p. 25.
[21] Ibidem. p. 26.
[22] Ibidem.
[23] Maria I da
Inglaterra (Maria Tudor – 1516-1558) foi a primeira a reinar o país por direito
próprio, de 1553 até a sua morte. Ela tentou resgatar o catolicismo matando
protestantes, o que lhe deu o apelido de Bloody Mary (Maria Sangrenta).
O famoso drink Bloody Mary (vodca e suco de tomate) é uma homenagem a
esse sombrio apelido.
[24] CHESTERTON, G. K., Ortodoxia... Op. cit. p. 27.
[25] Ibidem. p. 28.
[26] Ibidem. p. 29.